quarta-feira, 29 de julho de 2009

" A previsível impresivibilidade dos agentes patogenicos"

Nem só de artigos originais vive a investigação médica, nem tão pouco é necessário que uma publicação seja extensa para causar impacto na comunidade médica, em geral, e na consciência do clínico, em particular.

O exemplo mais famoso do acima afirmado, são as duas singelas páginas editadas pela revista Nature em 25 de Abril de 1953. O "pequeno" artigo intitulado de "Molecular Structure of Nucleic Acids: A Structure for Deoxyribose Nucleic Acid" deu aos seus autores, James Watson e Francis Crick, o Prémio Nobel da Medicina e Fisiologia.

Mas voltemos aos dias de hoje e à edição de 9 de Julho de 2009 do NEJM. De entre vários notáveis artigos, o que mais me despertou a atenção foi uma Perspective de autor único.

Nela, o Dr. Kent Sepkowitz, Internista/Infecciologista e responsável pelo programa de controlo de infecções do Memorial Sloan-Kettering Cancer Center (Nova Iorque, EUA), expõe as suas preocupações sobre a "previsível imprevisibilidade dos agentes patogénicos" e os exemplos recentes deste corolário.

Sepkowitz refere que a crença fundamental de que as resistências aos agentes antimicrobianos adquiridas por certos microrganismos derivam da exposição destes mesmos organismos ao agente antimicrobiano em causa, não é 100% correcta. Os casos que vieram refutar esta teoria são os da MRSA (methicillin-resistant S. aureus) comunitária e do ORIV (Oseltamivir-resistant Influenza Virus) (surgido no inverno de 2008).

O MRSA comunitário surge de maneira incipiente, em surdina, enquanto todos os especialistas em saúde publica se preocupavam com o VRSA (vancomycin resistant S.aureus). Pouco a pouco, foi-se dispersando, tornou-se mortal e modificou os procedimentos de tratamento de infecções cutâneas e pneumonias nos internamentos, serviços de urgência e unidades de cuidados intensivos. Numa ironia extrema, é este novo tipo de MRSA que está a propagar-se pelos hospitais, comportando-se como uma MRSA nosocomial típica.

Em relação ao ORIV, surgiu nos EUA no inverno passado, representando 95% dos casos de infecção por Influenza, contra 10% do ano passado. O sua génese é indeterminada e não está relacionada com o uso excessivo de Oseltamivir, actualmente o gold standard para o tratamento das infecções por Influenza.

Em ambos os casos a atenção estava afastada dos problemas realmente importantes.

Duma actualidade impressionante e com um tom ligeiramente irónico, Sepkowitz avisa que ao invés de uma preocupação extrema em formar grandes stocks de Oseltamivir para combater a novo surto de Influenza H1N1 do tipo A, deveríamos estudar e preocupar-nos com a actual propagação do ORIV na Escandinávia, correndo o risco de novamente nos "descentrarmos" dos problemas importantes.

Esta pequena Perspective termina com uma pequena opinião pessoal que prefiro manter na sua forma original: "In the future, we must resolve to keep fire and brimstone out of public health decisions. Otherwise, good judgment, necessary alertness, and scientific doubt also may go up in smoke."


Fonte:
Sepkowitz KA. Forever Unprepared - The Predictable Unpredictability of Pathogens. N Engl J Med 2009;361;2:120-121


2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Sorry, mas acho que o supracitado senhor tem uma perspectiva excessivamente paternalista da Medicina... As pessoas têm o direito a informação acerca da doença que podem enfrentar. O que é condenável é a forma como os media têm lidado com a situação!

    E trust me, não escreverias sobre a gripe se tivesses de aturar tias Marias muito tristes por não terem gripe A. E depois que vão contar às amigas?!?!

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