quarta-feira, 29 de julho de 2009

Parece que não sou só eu que não percebo por que razão a Asma e o RGE são amigos...

Este artigo baseia-se, segundo creio, na troca de galhardetes entre diversos colunáveis dos Hospitais Universitários de Taipei, País de Gales, Viena e o famoso John Hopkins... Toda a discussão gira à volta da misteriosa e estreita relação que existe entre a asma e o RGE, após o estudo de Mastronarde et al. que comprovou que o uso do esomeprazole não melhora o quadro em doentes asmáticos mal controlados.
De Taipei, começam a abrir-se as portas à discussão argumentando que existe uma clara necessidade de perceber a alta prevalência de RGE assintomático em doentes com asma mal controlada. Aqui se defende, na minha perspectiva, a necessidade de ir em busca da etiologia da questão!! Após todas as conclusões e respostas que a medicina baseada na evidência nos vem dando, não é possível negar-lhe a importância. MAS, não podemos seguir somente pelo caminho da estatística quando a fisiopatologia e a etiologia das questões nos são tão caras (refiro-me ao Valor sentimental e não monetário, obviamente)!!
Viena propõe um estudo endoscópico com biopsias, argumentando que apesar da diminuir a acidez do refluxo, os IBP não diminuem o número e a extensão proximal do RGE. A mim parece-me um método ligeiramente invasivo quando as endoscopias não vão, neste caso, ter nenhum efeito terapêutico. . . Seria de ponderar o quão importantes vão ser os resultados deste estudo para o doente e este teria de ser deviadamente informado da razão pela qual se lhe realizariam esses exames.
Desde o País de Gales, chega a teoria que poderia explicar a razão pela qual o esomeprazole não foi eficaz. A diminuição da acidez ao nível do estômago favoreceria o sobre-crescimento de uma flora bacteriana Gram negativa. Isso aliado ao facto do esomeprazole não diminuir a incidência de microaspirações, explicaria a razão pela qual o tratamento com esomeprazole não foi efectivo na melhoria do controlo da asma.
No John Hopkins sacodem a água do capote por não se terem lembrado da hipótese sugerida pela Univ. do País de Gales, com a ausência de evidência no sentido de demonstrar que o refluxo não ácido possa provocar broncoconstrição reflexa e referem que a alta prevalência de RGE é também encontrada em doentes com fibrose quísctica, DPOC e fibrose intersticial. Termina com um clap clap ao seu colega homónimo pela sua teoria que encaixaria a fisiopatologia com a conclusão obtida neste estudo efectuado na John Hopkins.


Fonte:
N Engl J Med 2009;361;2:206-208

" A previsível impresivibilidade dos agentes patogenicos"

Nem só de artigos originais vive a investigação médica, nem tão pouco é necessário que uma publicação seja extensa para causar impacto na comunidade médica, em geral, e na consciência do clínico, em particular.

O exemplo mais famoso do acima afirmado, são as duas singelas páginas editadas pela revista Nature em 25 de Abril de 1953. O "pequeno" artigo intitulado de "Molecular Structure of Nucleic Acids: A Structure for Deoxyribose Nucleic Acid" deu aos seus autores, James Watson e Francis Crick, o Prémio Nobel da Medicina e Fisiologia.

Mas voltemos aos dias de hoje e à edição de 9 de Julho de 2009 do NEJM. De entre vários notáveis artigos, o que mais me despertou a atenção foi uma Perspective de autor único.

Nela, o Dr. Kent Sepkowitz, Internista/Infecciologista e responsável pelo programa de controlo de infecções do Memorial Sloan-Kettering Cancer Center (Nova Iorque, EUA), expõe as suas preocupações sobre a "previsível imprevisibilidade dos agentes patogénicos" e os exemplos recentes deste corolário.

Sepkowitz refere que a crença fundamental de que as resistências aos agentes antimicrobianos adquiridas por certos microrganismos derivam da exposição destes mesmos organismos ao agente antimicrobiano em causa, não é 100% correcta. Os casos que vieram refutar esta teoria são os da MRSA (methicillin-resistant S. aureus) comunitária e do ORIV (Oseltamivir-resistant Influenza Virus) (surgido no inverno de 2008).

O MRSA comunitário surge de maneira incipiente, em surdina, enquanto todos os especialistas em saúde publica se preocupavam com o VRSA (vancomycin resistant S.aureus). Pouco a pouco, foi-se dispersando, tornou-se mortal e modificou os procedimentos de tratamento de infecções cutâneas e pneumonias nos internamentos, serviços de urgência e unidades de cuidados intensivos. Numa ironia extrema, é este novo tipo de MRSA que está a propagar-se pelos hospitais, comportando-se como uma MRSA nosocomial típica.

Em relação ao ORIV, surgiu nos EUA no inverno passado, representando 95% dos casos de infecção por Influenza, contra 10% do ano passado. O sua génese é indeterminada e não está relacionada com o uso excessivo de Oseltamivir, actualmente o gold standard para o tratamento das infecções por Influenza.

Em ambos os casos a atenção estava afastada dos problemas realmente importantes.

Duma actualidade impressionante e com um tom ligeiramente irónico, Sepkowitz avisa que ao invés de uma preocupação extrema em formar grandes stocks de Oseltamivir para combater a novo surto de Influenza H1N1 do tipo A, deveríamos estudar e preocupar-nos com a actual propagação do ORIV na Escandinávia, correndo o risco de novamente nos "descentrarmos" dos problemas importantes.

Esta pequena Perspective termina com uma pequena opinião pessoal que prefiro manter na sua forma original: "In the future, we must resolve to keep fire and brimstone out of public health decisions. Otherwise, good judgment, necessary alertness, and scientific doubt also may go up in smoke."


Fonte:
Sepkowitz KA. Forever Unprepared - The Predictable Unpredictability of Pathogens. N Engl J Med 2009;361;2:120-121